Esse é um blog com pensamentos sobre experiências e coisas que nos rodeiam. Tenho o objetivo de arejar mentes obtusas com questões aparentemente simples sobre o cotidiano.
segunda-feira, 1 de abril de 2013
Luxemburgo e Dorival Jr: O criativo e o burocrata
Certo dia em uma entrevista dada à Rede Globo em 2013, o técnico de futebol Vanderley Luxemburgo (Luxa) foi perguntado sobre a falta de talentos e a queda de qualidade do futebol brasileiro.
A resposta foi principalmente a perda do lado empírico, do amador que se torna profissional. As peladas de rua, de várzea, onde se joga com os pés no chão, onde esfola-se o dedão do pé pelo erro mínimo, onde briga-se na rua pela deslealdade da violência do adversário, cabe a malandragem (mesmo que anárquica), onde se vê a chance de sair da pobreza trabalhando com o que se gosta, aprende-se a tolerar os chatos, mal caráter, retrógrados, insuportáveis, brigões... a selva onde vive o "tudo ou nada". Ou é bom ou não é. Dentro de limites largos...
O Brasil de política desfuncional, ineficiência, que bate recordes de corrupção no mundo. Violento, com riqueza privatizada e centralizada na mão de poucos, pessoas paupérrimas pegando 2 horas de engarrafamento de ida e de volta pra casa pra ganhar um salário risível, para ele o brasil não fabrica mais socialmente aquele "camisa 10" que encontrava ou criava soluções versáteis e de repertório mais distinto no campo diante de extrema organização e competência adversária.
Foi esse futebol que até 2002 foi 5 vezes campeão mundial e entre 1994 e 2002 chegou a 3 finais de Copa do Mundo. Fala-se muito dos anos áureos anteriores, de Garrincha, Pelé, de 1982 etc. mas tanto o Luxemburgo, Paulo Autuori, Luis Felipe Scolari, Antônio Lopes, Candinho entre outros se consagraram nos anos 90.
Essa escola dessa geração fabricou tantos jogadores que Marcelinho Carioca, Jardel, Juninho Pernambucano, Cristian do Internacional, Sávio, Alex, Giovanni, Djalminha, Zé Roberto, Athirson, Raí, Edmundo, Leandro Ávila, Juan entre outros tão competentes e reconhecidos como grandes jogadores no mundo todo tiveram que esperar seu lugar. Ainda poderia se dar o luxo de não levar um Romário ou um Djalminha para a Copa do Mundo. Sendo que na copa de 2006, perdemos com uma das melhores defesas do mundo, onde Dida, Cafu, Lúcio, Juan, Roberto Carlos e Zé Roberto eram consagradíssimos na Europa.
Juninho Pernambucano com uma história invejável na França (dispensa maiores descrições, para maiores informações busque no Wikipedia) e na frente Kaká, Ronaldinho Gaúcho (um gênio), Ronaldo e Adriano.
Simplesmente 3 ex-melhores jogadores do mundo (Ronaldo e Ronaldinho 2 vezes) e Adriano como uma grandíssima promessa.
Com a profissionalização precoce dos jogadores com um diretor, olheiro, empresários, moldes diversos, segundo Luxemburgo nós perdemos o empirismo em prol de uma organização maior que minou uma criatividade culturalmente enraizada no futebol brasileiro. Lembrando que a primeira década dos anos 2000 foi a consagração no Brasil do futebol feio com resultado com sucesso de Muricy Ramalho, Abel Braga etc. O São Paulo foi tricampeão brasileiro e campeão mundial 2 vezes ganhando de 1 x 0, 2 x 1 com o próprio Muricy declarando ter um "futebol feio". Perdia-se ali a espontaneidade, irreverência, o "dar nó em pingo d´agua" e se pararmos para pensar, os jogadores citados como astros da Copa de 2006 eram filhos do final dos anos 90/transição pra 2000. Juninho Pernambucano, Zé Roberto, Dida, Juan, Lúcio, Adriano e Kaká (sem deméritos e por melhores que fossem) não tinham vaga de titular nas seleções anteriores.
"Coincidentemente" depois de Scolari, tivemos o Parreira (preparador físico da década de 70) com esses gênios em campo. Mas depois de 2006 fomos treinados pelo Dunga, cercamos por todos os lados o Muricy para hoje (2013) voltarmos com Mano Menezes e depois Parreira e Scolari novamente tentando resgatar o que perdemos e assistirmos hoje admirados o futebol da Espanha e do Barcelona, inspirados no que fazíamos há 20 anos atrás espontânea e criativamente aliando o profissionalismo, à habilidade e malícia num todo disciplinado do futebol brasileiro.
Em contrapartida, em entrevista também de 2013 de Dorival Junior (que não é nem de longe um retranqueiro e amante do futebol feio etc.) em entrevista ao Sportv disse que o Brasil nunca teve um planejamento futebolístico adequado. Para formar jogadores nas posições carentes e entendendo as estratégias do futebol para um bem maior. De jogadores que pudessem servir aos diferentes setores e treinados nos fundamentos para aquilo.
Caro Dorival ! Disciplinar um jogador desde a base em prol da satisfação de objetivos alheios a ele, no contexto da realidade brasileira, do "Homem Cordial" de Sérgio Buarque de Holanda, da hierarquia do Da Matta da politicagem de empresários que transformam perebas em mercadoria, onde impera o investimento, o QI (Quem Indica), o capitalismo, os moldes e os protegidos não é adaptado ao modelo e à realidade brasileira, Dorival.
Os jogadores fazem sucesso na Europa justamente por el "baile" por ousarem fazer um circo num futebol organizado. Por darem toques pra todos os lados ao invés de atacarem sem eficiência em prol de um "futebol objetivo". Foi isso que tornou o futebol brasileiro imprevisível, irreverente e um espetáculo gostoso de se ver. Nossos gênios não são brucutus, a torcida não reverencia Gilberto Silva, Felipe Mello, Matarazzi... até precisamos de disciplina, mas de uma disciplina de um Gérson e de um Andrade. O futebol brasileiro nasceu dentro de uma selva social, competição entre o humano e o desumano, entre o certo e o errado, entre a disciplina, o improviso e a malandragem.
Um debate super atual é de que hoje em dia discute-se que a escola acaba com a criatividade. Enquanto os Estados Unidos quer diminuir a carga horária mínima do colegial, o Brasil aumenta. Enquanto o critério básico da criatividade hoje é o do tempo livre, onde trabalho tem que incluir jogo, trabalho e ludismo a Escola tradicional é uma visão retrógrada onde se obedece mas não se cria algo novo, e como toda instituição tem caráter tradicional. A referência social passa a ser a obediência, abaixar a cabeça a certos critérios da cultura brasileira, onde para se "passar no vestibular" precisa-se ter a assinatura do superior. É o oposto dos múltiplos caminhos para se atingir a um mesmo fim, do improviso e da versatilidade, uma vez que se institucionaliza e se hierarquizam e limitam as vias de acesso.
Para fazer uma Escolinha de Futebol, precisamos primeiro formar líderes competentes e o Brasil de um modo geral não é referência pra isso. De uma escola que te forme para a vida e não se feche nela mesma ou como privatização do mundo público na mão de dirigentes. Uma trabalho árduo, meticuloso e somente viável a longo prazo.
O gênio tem por característica ser rebelde, parece romper com "todos" os princípios esquematizados, secularizados, burocratizados que no máximo você direciona. Se disciplinar, desmotivar, estruturar demais perde as soluções geniais. Ele sabe mais que os superiores, tem vida própria, precisa de liberdade profissional com limites sensíveis na relação, auto responsabilidade e não de um desmotivador chato, burocrata e hierárquico pra mandar nele. Durante a vida ele driblou a hierarquia nacional com irreverência e alegria. Deu um chapéu nos problemas sociais, na falta de estrutura geral para a sobrevivência e o florescimento espetacular do talento aliado à objetividade.
Como dizia Domenico de Masi, sociólogo especialista em criatividade humana, a criatividade é um ponto de chegada, não de partida. Alinha critérios "rebeldes" e indisciplinados ao talento em prol de um objetivo. Essa é a escola brasileira !
Em termos práticos de curto prazo e presente, os pensamentos de Dorival e Luxemburgo (sem polarismos retrógrados) estão ideologicamente em sentidos contrários. Por mais flexível que Dorival seja, tal pensamento o puxa para trás em prol da burocracia.
Por isso que o Luxa consegue fazer jogadores medianos "nem tão bons assim" dar resultados em princípio inesperados. Dar utilidade a peças esquecidas e inoperantes, encaixar peças de gambiarra numa engrenagem... sem deixar de ser disciplinador por isso.
Foi nessa linha de pensamento que diminuimos os atores que davam "brilho". O Neymar faz parte da memória social do futebol brasileiro, o que perdemos há muito tempo por pensamentos retrógrados em prol de uma eterna competição e resultado. Não de talento, irreverência e resultado. Ir contra isso é ir contra a memória, os ídolos do futebol nacional: é ir contra você mesmo.
Se "nunca tivemos essa formação" e os jogadores brotaram espontaneamente (segundo palavras do próprio), ele não está contando milhões de meninos que se inspiram nos dribles dos astros da televisão e repetem nas peladas. A televisão e a mídia Dorival, também servem de referência de escola. A rua Dorival, também serve como escola. A indisciplina direcionada também serve como escola e não uma classe dirigente que tenta institucionalizar tudo, burocrática e hierárquica (a má e insensível hierarquia) .
Dorival está longe de ser uma referência disciplinadora dessa linha, é até bastante flexível na frente de outros que observamos por aí. Mas treinadores com essa ideologia não podem mais continuar fazendo parte da linha de frente do futebol brasileiro: são um assassinato à memória do futebol brasileiro. À constituição histórica e a eles mesmos.
Diego da Rocha Viana
1 de Abril de 2013
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